segunda-feira, 3 de abril de 2017

Hiato de nós

Preciso marcar um horário para me encontrar. Na correria do dia a dia não há reserva para mim. Todo mundo precisa de ajuda. Todo mundo precisa de um conselho. O mundo me rouba tempo. Arranco mais uma folha do calendário e é mais um mês que se vai. Preciso me recolher. Catar os pedaços que esqueci de guardar. As partes que deixei de cuidar. Dos cabelos que continuam caindo, as unhas quebrando, as feridas que não saram. Me perdoa a ausência. Me desculpe se eu não comparecer. Espera. Espero que você entenda. Como te dizer que quero ser mais eu? E sendo eu sou menos aquela quem eu era. Sou mais agora. E aquela de amanha não sei. Ela não existe senão agora, quando tiver que ser. Adia aquele nosso encontro que não vai dar. Aviso quando eu estiver disponível. Adia o mundo que eu vou parar. Antes que eu me separe, vou partir. Me juntar comigo, sentar na sala e fazer planos. Pensar em mim. Encontrar um jeito de sair desses escombros de necessidades que acumulei e que não são minhas. E então encontrar as minhas necessidades, lutar por elas, falhar por elas e começar de novo. Eu volto. Não há um dia no calendário pra você marcar e esperar. E não sei também se volta quem você espera. Aviso quando chegar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Refém

        Segurei a sacola com as compras em uma mão e abracei a sacola com vinho contra meu peito com a outra, tinha que cuidar o que era importante, agradeci à moça do caixa com um sorriso e saí do mercado pensando no macarrão que eu faria logo mais. A primeira coisa na verdade seria abrir o vinho e colocar alguma música dançante.
        Parei na calçada, olhei os dois lados da rua, quando senti aquela presença. No canto do olho me espreitava um rapaz alto, magro do tipo que anda até curvado. Ele não me olhava nos olhos e as olheiras eram enormes, o cabelo preto contrastava com a pele clara e aquela repartição tão certinha para a direita me trazia alguma desconfiança. Senti um arrepio e foi como se toda a leveza de minutos atrás se dissipasse. Olhei novamente a rua e atravessei.
        Duas quadras, esquerda. Olhei pra trás e ele estava ali. Muito estranho. Segurei a outra sacola contra o peito. Esquina, esquerda. Só mais três quadras. Apressei o passo sem olhar para trás. Duas quadras.
        Tropecei.
        A garrafa de vinho voou e saiu rolando, os cacos e o líquido escuro espirraram em mim, fechei os olhos e levei a mão no rosto. Senti os dedos se enroscarem em meu tornozelo, virei para olhar.
        Abri os olhos. Minha mãe abria a porta avisando que estava saindo para o trabalho, acendeu a luz e foi quando eu vi ele sentado ao meu pé da cama, a mão ainda enroscada em meu tornozelo. Sentei num salto, olhei da minha mãe para ele, dele para minha mãe. Claramente ela não via ele ali. Ficamos nos olhando pela primeira vez, eu e ele, estava claro que ele não iria embora.
        Naquele dia ele me acompanhou durante o banho, durante o café, entrei no carro para dirigir e ele sentou no passageiro. Sua presença era opressora, o ar ficava pesado e o dia cinza. Ninguém o via, mas sentia como eu os incômodos quando estava perto dele.
        Fui me tornando refém, eu não conhecia sua voz, ele não me dizia palavra alguma. Mas, me seguia silenciosamente por todos os lados. A angústia, o peso, a culpa, a dor, a ansiedade.
        O medo.
        O reconheci e encarei ele de frente. Perguntei o que queria e por quanto tempo pretendia ficar me seguindo. Mal tinha voz, o coitado, gaguejava e tentava se explicar. Eu então abracei o medo, senti compaixão por ele e entendi que ele era parte de mim, que me mantinha viva.

        Expliquei que ele não podia mais comandar ali, que ele podia ajudar sim, mas quem dava as cartas era eu. Assim, quando eu preciso sentir meus ossos, quando a casa precisa chacoalhar as estruturas e ficar atenta ele vem. Ele é um alarme que me alerta dos perigos. Às vezes ele é irracional e teimoso, e eu tenho que negociar. Todos temos que encarar o medo de frente e negociar com ele, senão nos tornamos reféns de uma criança incompreendida que só quer um pouco de amor e de atenção. O medo não é vencido na força, mas na compreensão, por isso somos tão medrosos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Vamos devagar, mas nem tanto

Você me dá um beijo rápido e se afasta, eu te abraço apertado pela cintura e tomo mais um beijo. Me beija devagar porque a vida passa tão rápido quando estamos aqui. E demora tanto quando não estamos. Você fala que eu pareço desesperada falando assim. Eu te digo que meu desespero é viver, eu sou intensa, corrijo, mas se for desespero que seja. Porque a vida corre rápido e amanhã eu posso atravessar a rua e tudo que vamos ter vai ser esse beijo rápido de despedida. Não estou sendo dramática, se a morte te assusta tanto, então amanhã esse amor todo pode acabar. Você pode atravessar a rua, olhar no relógio, são três da tarde de uma quinta-feira e o amor acabou. Porque acaba, pode vir sem alarde e te atingir como um piano caído do nono andar direto em cima de você. Ou pode ir se anunciando assim num beijo rápido, numa mensagem não respondida, na ausência, na falta que já não faz mais. Não, não estou terminando, nem falando tudo isso pra dizer que acabou. Mas vai acabar, uma hora vai acabar. Porque é assim. Porque o que a gente tem é só agora. Então me beija devagar que eu quero desacelerar o tempo só mais um pouquinho.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Não repara na bagunça

Não repara na bagunça, eu disse, girando as chaves e abrindo a porta. Entrei procurando o interruptor e já tirando os sapatos, logo atrás de mim vi que ele também se abaixava para desamarrar os tênis.
- Não precisa tirar se não quiser.
- Tudo bem. – deixamos os sapatos ao lado da porta e ele entra na sala enquanto pego um copo d’água. – Você foi assaltada?
Escuto a voz dele rindo lá da sala.
- Eu não tive tempo de arrumar, tá desse jeito há uma semana.
Não tinha sido uma boa ideia trazer ele pra casa hoje, enchi dois copos, guardei a água na geladeira e parei olhando alguns segundos pra quantidade de espaço livre nela, eu precisava passar no mercado amanhã cedo. Amanhã. Peguei os dois copos e entrei na sala, ou no que restou dela depois do campo de batalha. Trocas de roupas e sapatos acumulados, as coisas que ficaram da minha troca de bolsa em cima da mesinha, papeladas e livros no rack e na escrivaninha. Ele abre a janela e uns dois papéis saem voando.
- Desculpa. – ele vira com o barulho das folhas voando, e volta para fechar a janela.
- Não precisa.
Deixo os copos em cima da mesa, abaixo para pegar as folhas e coloco um peso sobre elas. Amanhã eu arrumo. Pego a água, enquanto ele procura algum espaço no sofá, estendo o copo para ele e jogo algumas coisas na cadeira pra poder sentar ao lado dele.
Definitivamente hoje não era um bom dia, mas eu precisava da presença dele, do silêncio que só ele era capaz de compartilhar comigo. Encosto a cabeça no ombro dele e ele passa o braço por cima dos meus ombros, fazendo carinho nos meus braços.  Aconchego em seu peito, pensando no quanto eu me sentia exausta, aquela semana tinha acabado comigo. Ficamos ali só curtindo aquele momento sozinhos, até que ele me beija.
Me levanto e tiro a blusa e a calça, ele me olha atentamente e estende a mão me puxando pra perto. E se detém na marca roxa na minha perna.
- Tá doendo?
- Não.
- O que você fez?
- Bati em algum lugar, apareceu aí, não sei.
Ele dá um beijo lugar e continua uma trilha até chegar ao meu rosto. Trago ele pra perto de mim, com as mãos em suas bochechas e dou um beijo demorado. Ele me abraça e cheira meus cabelos.
- Que está acontecendo? – me encara, passando os dedos pelo meu cabelo.
- Nada. – respondo com um nó na garganta, tentando não fazer cara de choro.
Escondo o rosto em seu peito, me agarrando à camiseta em suas costas. Ele me abraça forte e eu sinto como se eu fosse quebrar em milhares de pedacinhos e explodir nele, despedaçar no chão, de uma forma que eu nunca seria remontada, que nem ele, nem ninguém daria conta de catar todos os caquinhos. Eu carregava um mundo todo nas costas e ele me parecia pesado demais.
- Quer conversar?
Eu nego com a cabeça, como explicar o quanto a semana tinha sido cansativa, que as coisas continuavam dando tão errado, que eu me sentia inútil no trabalho, e os erros e problemas, causados ou não por mim, me faziam questionar se eu estava na profissão certa, se eu devia ter feito outra faculdade, se eu era boa o suficiente para alguma coisa, já que eu não sabia que outra coisa eu poderia fazer. E como eu me sentia perdida e sem futuro, presa pra sempre no momento de trabalhar, pagar as contas e ficar sem grana, e levantar toda segunda-feira mesmo assim, e o carro que tava com aquele barulho que não dava mais pra adiar e eu ia ter que levar pro conserto na semana que vem, só que eu tenho que trabalhar sábado por causa daquele freela que apareceu, pelo menos era uma grana que entrava, que ia direto pra pagar o carro. E eu me perguntava se a vida era só pagar boletos e me sentir inútil.
Ele solta o abraço e se afasta.
- Você não está bem, né? - dou de ombros, suspirando.
Sinto o beijo na testa e vejo se afastando, saindo pela porta da cozinha. Deixo meu corpo cair no sofá, não poderia pedir pra que ele ficasse junto com a minha bagunça, interna e externa.
- Pelo menos a louça você tem lavado. – ele volta da cozinha com duas taças e uma garrafa de vinho.
- Ver a pia limpa é uma das poucas coisas que me traz paz de espírito.
Eu pego a taça que ele me estende e enche de vinho sem cerimônias. Pelo menos o vinho nunca falta. Ele senta ao meu lado e puxa meus pés pro colo dele, contando sobre a semana, os problemas, o cliente novo que apareceu, até eu me sentir sonolenta demais para prestar atenção.
Acordo deitada na cama com ele me abraçando de conchinha, procuro algum relógio ou celular perto, são três da manhã. Me aconchego novamente em seus braços. Amanhã vai ser um novo dia, volto a dormir, amanhã eu dou um jeito nessa bagunça. Amanhã.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Me deixa tirar sua roupa hoje

        Hoje eu queria fazer um ~negócio~ diferente se você tiver afim, porque eu te quero nu, não apenas como veio ao mundo, mas também como você ficou depois que o mundo veio em você. Quero o nude da sua alma, por mais clichê que isso seja. Quero sim despido, dessa armadura que você usa e vem aperfeiçoando as skill de defesa desde que descobriu que o coração se parte. Mas, não importa porque com ou sem essa sua armadura ele já partiu em pedaços e você continuou lutando, apenas pare de lutar contra mim. Eu também tenho minha armadura e cicatrizes e posso mostrar pra você se você quiser, porque é só assim que se conhece o outro.
        Sei que dá um medo da porra abaixar a guarda e ficar vulnerável a alguém, mas eu vou pisar com cuidado nesse campo minado que é o sentimento de outra pessoa, porque eu não quero ferir ninguém, nem você, nem a mim. Eu só quero que você me ajude a construir essa ponte que eu to erguendo, cada um de um lado, nos encontramos no meio.
        Vai, me ajuda a tirar essa sua roupa, essa máscara de distante, essa auto suficiência que me empurra para longe toda vez que eu tento me aproximar de você. Me mostre a cicatriz no queixo daquela vez que você caiu de bicicleta, mas me mostra também aquela de quando sua namorada da faculdade te largou plantado na porta do apê dela num dia de chuva. Me mostra o defeito daquele seu dedo torto e aquele defeito que você tem de implicar com a sua mãe por qualquer coisa. Me mostra as suas fotos de pequeno e os textos que você escreve em segredo e nunca mostrou para ninguém.
        Mostra para mim o que você nunca mostrou para ninguém. Porque só assim eu posso ser para você o que eu nunca fui para alguém. Se nenhum de nós dois cedermos seremos apenas mais duas pessoas legais que se cruzaram na vida e seguiram, nós nunca seremos tão incríveis como podemos ser. Então tira a roupa para mim hoje, que eu também vou tirar a minha, bem devagar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Coração pirata

Meu coração pirata é amante dos mares revoltos e das tempestades
O mar calmo me entedia, aponto para o vento à favor e velejo abrindo caminhos
Não sigo rotas, mas minha tripulação confia
Escolho a dedo os loucos, os apaixonados, os destemidos
Outros piratas de peito aberto à vida

Eu não sei pedir
Quando ancoro no porto alheio é para pilhar, saquear
Não sei ser sutil
Tomo de assalto toda paixão e carinho que carregam no peito
Eu quero tudo que pode me dar
E o que não pode também
Me entregue sua história, seus medos
Aquela parte de você que ainda pulsa que te lembra que você está vivo

Mas quando me prendem
Eu me rendo
Entrego todo o tesouro acumulado e escondido no porão da indiferença
Cada ouro e prata e jóias
Tudo
Guardado há tanto tempo dentro do peito

E quando acaba sou só mais um pirata num bar imundo
Bebendo rum e desgraçando a vida
Pobre e fodido
Mas acaba o rum, acaba a tristeza, sempre acaba
E é mais uma cicatriz no peito rasgado, mais uma história
Partimos
Outro porto, outra pilhagem, outra cicatriz.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Eu inventei você

        É bobagem eu dizer que amei por nós dois, eu amei por mim só, eu amei porque eu quis, porque te quis muito. Nunca neguei. Sou dessas, não nego, nem fogo, nem sentimentos, mergulho de cabeça em pessoas rasas ou não, me entrego em tudo, deixo um pouco de mim em cada coisa em que coloco atenção e me dou, e dôo.
        Porque dói, quando você abre as portas, as janelas, coloca flores na varanda do coração e serve seu melhor café, e a pessoa não se interessa. Talvez goste, mas não o suficiente para ficar. Me pergunto o que fazem com o pedaço de mim que fica, ou se nem notam, levam arrastando igual cadarço desamarrado até gastar.
        A verdade é que eu te inventei, te escolhi a dedo, porque sim. Porque às vezes a vida é um pouco de comédia romântica, a gente esbarra em alguém e já ta pensando no beijo debaixo da chuva. Teve até trilha sonora quando te vi e era algo como Snow Patrol. Me apaixonei como quem se apaixona num filme, sem muita explicação, só porque se quer. Alguém.
        Mas você não seguiu meu roteiro, éramos para ser um casal alternativo com falas divertidas e programas inesperados. De inesperado só o gelo que você me deu. Mas eu entendo e não te culpo, porque o seu eu inventado era um pedaço meu que você ia desmontando aos poucos mostrando quem você é e que eu não quis ver. Agora sobrou só você de verdade, real, com todos os seus defeitos e mancadas, e essa não é pessoa por quem eu me apaixonei.
        Erro meu, me apaixonei pela ideia que fiz de você, como posso querer que você se apaixone por mim? A gente se perdoa e segue em frente,já abri as portas e janelas para o sol entrar, vou comprar flores e fazer um café para mim.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Engole o choro

        Quando eu era criança depois de uma bronca daquelas minha mãe me dizia para engolir o choro, e gente, era difícil. Ás vezes, quase sempre, saía uns soluços e dava uma raiva imensa, porra mãe! Mal sabia eu quantas vezes eu diria isso pra mim mesmo, todos os dias eu engulo um choro.
        Porque ser adulto é assim, a gente engole o choro pra sair da cama independente se tá 2º lá fora, se tá caíndo o mundo de chover, ou se tá um dia tão lindo que merecia andar de bicicleta e ficar fazendo fotossíntese ao sol. Porque você tem seu emprego, que paga suas contas, que te permite viver, viver! Engole mais um choro.
        A gente engole o choro porque nada saiu como planejávamos, porque você tá 27 anos nas costas e não arrumou o emprego da sua vida, não comprou o seu carro, não viajou pra Paris, ou Irlanda, tanto faz. Você não realizou nada grande, sua maior conquista é chegar ao fim do mês com a conta positiva. E seus amigos estão de casa nova, filho novo, carro novo, o máximo que você consegue é um corte de cabelo novo.
        A gente engole o choro porque o dia foi uma merda no serviço, você não rendeu nada, seu chefe deu um esporro daqueles, e você nem pode se defender. Você chega tão esgotado em casa que não engole mais choro nenhum, e a gente chora que amanhã tem que batalhar de novo, render de novo, fazer o que você é pago de novo, engolir sapos de novo.
        A gente engole o choro e engole todos os sentimentos junto, porque você não pode depender de ninguém, você não pode gostar demais, até pode, só não pode demonstrar. Engole esse sentimento menina. Engole esse orgulho. Engole esse seus sonhos. Engole suas vontades. Engole quem você é.

domingo, 19 de junho de 2016

Eu sinto muito

        Eu só queria te dizer que eu sinto muito. Sinto mesmo. Do frio nos pés ao formigamento nas mãos, a ansiedade que eu sinto de saber que vou te ver dali a alguns minutos. Fico nervosa, vou ao banheiro, confiro a hora, não vai dar, vou avisar que não vou. Desisto. Pego as chaves do carro, estou indo te ver. Ligo o som, sinto o vento, estou a caminho.
        Te vejo e meu rosto é serenidade. E você vem, com aquele sorriso fácil e aí, meu bem, eu sinto muito. Alguma coisa que se instala entre o estômago e os pulmões, o coração num descompasso, as mãos suando. Respiro fundo. Eu te abraço e tá tudo bem, você existe e sua presença sólida, seu cheiro patenteado, seu-meu beijo. Você existe e tá tudo bem.
        A banda toca e a gente dança, a vida passa, a gente dança, o amor nos toca, e a gente dança. Espera, não sei dançar e beijar, não ri, me ensina então, me leva. Vai me levando que assim eu fico, ou vou junto, vamos juntos. Você me abraça e eu sinto tanto, ali colada no seu coração eu peço a ele baixinho que você sinta muito também.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Não vai dar certo

      A gente não vai certo, eu já te disse isso, mas agora é praticamente uma certeza. Talvez porque nós já tenhamos começado errado, um errado que deu tão certo, talvez porque não é para ser e ponto, talvez por irmos empurrando e vendo o que dá, talvez por irmos devagar demais e não vamos chegar a lugar algum. Mas sinto muito, sinto mesmo que não é pra ser.
      Nós somos legais juntos, a nossa turma nos acha divertidos, nós temos essa calma incomum pra quem tá começando. Talvez calmos demais, como quem sabe que só tem o agora, como quem coleciona momentos sabendo que amanhã pode não ter mais nenhum.
      Você você não faz planos, eu já não respondo as mensagens tão rapidamente, você quer ficar em casa com os amigos, eu quero ir ao show, você me pergunta do meu dia, eu apareço na sua casa e vou ficando. Mas a cada dia vai ficando menos de mim aí, e eu trago menos de você comigo.
      Aquela música que eu ouvi e não te mandei, aquele filme que você viu e não comentou comigo, aquele livro que eu terminei mas esqueci de contar, o programa que você fez e não me incluiu. Pequenas coisas que não reconhecemos, até não nos conhecermos mais.
      Mas por enquanto deita aqui no meu colo, eu fico em silêncio, você me pergunta no que estou pensando, não vai dar certo, meu bem, penso, e só respondo "nada", deixa como está, não adianta estender o que não é pra ser. Me dá um beijo, amanhã é outro dia, tô indo embora, é carinho que fica.