sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Mais fácil aprender japonês em braille

                É uma pena sermos tão desinteressantes um ao outro. Você não consegue desenvolver mais de cinco de minutos de conversa comigo. E minhas tentativas de te impressionar ou de ser engraçada de alguma forma são terrivelmente miseráveis. É frustrante, para não dizer humilhante, como duas pessoas tão interessantes e divertidas não conseguem o mínimo de fluidez na prosa. Às vezes eu até consigo visualizar dois primatas, você batendo com um porrete no chão e eu puxando os cabelos, enquanto fazemos sons tentando nos comunicar. Não nos entendemos. É mais fácil aprender japonês em braille.
                Então por que nos impomos a desconfortável presença um ao outro? Por que de alguma forma estranha nossas línguas falam o mesmo dialeto quando em contato? Como nossos corpos reagem imediatamente à aproximação, negando que há alguns minutos atrás havia uma nuvem cinza de desconforto pairando sobre aquele terrível encontro kármico.
                Somos primatas. E somos ótimos nisso. Ainda que para isto tenhamos que sofrer terríveis dores impostas pelos bons modos de convívio social. Somos aquele aperto de mão que não conseguimos organizar, naquela dancinha da humilhação "opa, duas mãos direitas!" "trocou, duas esquerdas agora, legal" "dá um abraço aqui e um tapinha nas costas". Maldito tapinha nas costas.
                Nós somos as pessoas erradas, não tem essa de momento certo, nem hora errada. Nós não combinamos. Aceita que dói menos. Acontece, a gente tentou, duas vezes. Mas de boas, você é legal, juro, obrigada, que bom que você acha isso de mim. A vida segue, a gente se vê por aí.

                Caramba, o que foi que aconteceu aqui?

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Se a vida fosse um lugar

                Às vezes eu sinto como se a vida fosse um lugar e não uma questão de tempo, como se eu pudesse voltar na rua dos 18 ou 19 anos e fazer um trajeto diferente. Penso que peguei algum atalho entre os 20 e 23 e me encontro completamente perdida, ou melhor, não me encontro. Já pensei em descer do carro e pedir alguma referência, mas as pessoas estão tão corridas e determinadas nas suas vidas cheias de sentido, que ninguém iria me dar atenção. Socorro alguém sabe para onde ir?
                Já ouvi dizer que a vida é sempre em frente, mas meu tanque já está chegando na metade e eu não faço a menor ideia de onde estou indo. Em algum momento havia um mapa, cheio de regras de onde ir, o que fazer, mas ele estava velho e não fazia mais sentido. Então eu joguei fora todos aqueles conselhos e resolvi fazer o meu próprio caminho, mas para que?
                Para ser a estúpida no meio do caminho, com as coisas mais inúteis dentro do carro, uma faculdade que não usei, uma pós nova em folha, o porta mala cheio de livros, alguns rabiscos e textos espalhados, algum senso de identidade. Mas nenhum espelho. Se eu voltasse aos 18 eu me reconheceria? Se eu pudesse voltar àquela rua, estaria eu agora no mesmo lugar?
                Não, não tem como voltar. E eu gastaria tantas energias tentando consertar o que já foi, que perderia o que resta. Talvez eu devesse curtir mais o caminho, enlouquecer um pouco, viajar. Talvez ajudar mais às outras pessoas, fazer algum trabalho voluntário, olhar mais para os outros do que tentar arrumar a bagunça que já está feita. Não por aceitar, mas por agradecer. Gratidão é um sentimento poderoso, assim como a Empatia. Olha só, você também está perdido, poderíamos nos ajudar.
                Talvez o caminho fosse mais fácil com alguma companhia, mas não, não posso contar com a sorte. Sigamos em frente.
                Seria bom cuidar um pouco do corpo, fazer algum exercício, emagrecer, endurecer. Sabe como é, já são vinte e poucos e se assim já não está aquela coisa, nos trinta a coisa vai piorar. Definitivamente a tendência é para baixo, alguma coisa para lutar conta enfim! Gravidade, sua puta sacana, eu podia sair voando por aí.
                E fazer algo que não fosse pelo dinheiro, ou envolvesse dinheiro, algum lugar onde só eu me encontrasse e pudesse enfim ser eu mesma. Sem todo esse peso de ser responsável, e sensata, e auto-suficiente. Onde eu pudesse encontrar a minha voz, onde eu pudesse descansar a minha bagagem, sem ter que ficar carregando todo o passado por aí.

                Mas olha só, acho que consigo ver algo ali na frente, já está amanhecendo e as coisas são diferentes pela manhã, pelo menos é o que dizem. Mas não são as coisas que estão diferentes, sou eu. Acabei de ver no espelho e quase não reconheci, mas tudo bem. Difícil seria não poder mudar, não poder abandonar a bagagem, estranho seria voltar naquelas ruas lá atrás. A vida não é um lugar, mas uma questão de tempo.

Esse é para você

        Eu não sei fazer poema, mas se eu soubesse você seria dona de todas as minhas métricas e rimas, escreveria em dodecassílabos, versos alexandrinos dos maiores trovadores. Como não sei escrever poema algum, minha poesia é você. E você é mais perfeita que todos os versos de Pessoa, as ninfas a invejam, ou quase, porque não sou um poeta e não faço jus à inspiração que bebo em sua fonte. Mas se eu fosse um poeta, eu escreveria sobre você.
        Eu não sei fazer música, mas se eu soubesse você iria ser dona de todas as minhas notas e melodias, comporia intermináveis sinfonias em sintonia com seu coração. Como não sei fazer música alguma, minha música é você. E você é mais perfeita que todos os vocais de Freddie Mercury, as groupies morrem de inveja, ou morreriam, se eu fosse um músico, mas sou apenas um apreciador do som da sua voz. Mas se eu fosse um músico, eu cantaria você.
        Eu não sei fazer pintura, mas se eu soubesse você seria o retrato em todos os meus quadros e recortes, iria incansavelmente buscar acertar o tom exato dos seus olhos verdes em cada mudança sua. Como não sei pintar coisa alguma, minha pintura é você. E você é mais perfeita que todas as cores de van Gogh, as musas se cobrem de raiva, ou deveriam, se eu fosse um pintor, mas sou apenas um observador das nuances dos seus cabelos. Mas se eu fosse pintor, eu retrataria você.

        Eu sou só um escritor torto, não sou barato, porque na verdade eu não valho nada. O que eu sei é escrever, e você é o tema em todos os meus escritos e trechos, o contexto em cada palavra que eu escolho. Você é todos os meus textos, meus rabiscos de versos, você é aquela frase escrita num guardanapo, você é minha tentativa de poesia, e você é maior do que tudo isso. Eu nunca vou conseguir colocar você neste papel, mas o que eu tenho é mais este texto. E ele é, como sempre, para você.

sábado, 5 de setembro de 2015

Você vai sentir a minha falta

      Você vai sentir minha falta quando eu me for. E isto não é uma maldição. É uma profecia como as de Cassandra, mas nesta é melhor que você acredite. Se você me deixar ir, você vai sentir a minha falta. E não vai ser agora, porque você vai continuar a sair, e vai conhecer outras pessoas, sair com outras mulheres. Até que você vai encontrar uma foto no seu celular, daquele dia que tomei vodka demais e você tirou a minha foto fazendo careta, e vai rir sem coragem de apagar. E vai se perguntar porque não deu certo.

      E quando o silêncio invadir o seu quarto, e estiver dormindo do seu lado alguém com um desses longos cabelos lisos escovados três vezes ao dia você vai ouvir minha risada escandalosa ecoando pelo quarto e a bagunça do meu cabelo ondulado se espalhando pela sua cama não deixando você dormir. E vai perder o sono, se perguntando porque não sou eu ali do seu lado.

      Na balada com seus amigos você irá pedir uma cerveja e vai se perguntar se eu já bebi aquela, porque o malte é mais torrado e você nota uma nuance de... mas vai perceber que eu não sou sua companhia e que não tem ninguém para compartilhar isto, e vai apreciar o sabor da saudade. E o pior é que a banda não para de tocar clássicos, daqueles que eu costumava cantar fazendo tantas caras e bocas, dançando como se o mundo fosse acabar se eu não me acabasse de dançar. E vai olhar em volta achando tudo meio sem graça, se perguntando porque eu não estou ali.

      No seu carro vai sentir a falta das minhas playlists trocando as músicas e "presta atenção nessa letra aqui oh" cantando um trecho dizendo que sim, eu gosto de você sim, e que você vai sentir minha falta quando eu me for. E vai olhar a lista, o meu nome lá no fim, se perguntando que música eu devo estar cantando para alguém agora.


      Então aproveita que hoje é sábado e que eu ainda estou aqui e aceita meu convite para irmos ver aquele show que eu to afim, ou ver aquele filme novo que saiu, ou ir comer alguma coisa que eu to sempre com fome. Aproveita e me segura, mostra que você está do meu lado e é aí que pretende ficar. Mostra que ninguém vai embora e que você não vai precisar sentir a minha falta.