segunda-feira, 8 de junho de 2015

Para uma segunda-feira doce

    Virou a chave e entrou no apartamento, colocou o chaveiro no pote, deixou a mochila no sofá e já dava para sentir cheiro de comida boa. Encontrou a namorada na cozinha, se acabando em lágrimas.
    - Ei mor, o que houve?
    - Eu atendi um casal hoje lá na empresa, os dois velhinhos. Ela teve um AVC e não mexe nada, só escuta. Ele falava com ele o tempo todo, com um amor que não se vê mais hoje em dia. Ela ficou toda emocionada, chorando de alegria... – soluços.
    Ele sorri e a abraça:
    - E o nosso amor hein?
    - Era amor de velho, é diferente!
    - Nós chegaremos lá... – deposita um beijo na testa dela – Sabe que é isso que eu amo em você? Essa sua capacidade de amar o mundo inteiro, e odiar a metade no segundo seguinte. Mas OK, porque você tem esse caos de emoções aí...
    - Tá dizendo que eu sou sentimental? – ela afasta do peito dele, franzindo o cenho.
    - Também, também. Mas você tem esse seu QI emocional, essa coisa de se colocar no lugar do outro... como chama?
    - Empatia?
    - Isso, empatia! Além de linda é inteligente...
    Ela sorri e arruma aquela mecha teimosa do cabelo dele que não ajeita direito desde o último corte.
    - E sabe o que eu amo em você? – ele move a cabeça em um não – TUDO! Eu amo os seus erros, as pessoas que você amou, os lugares onde esteve, as pessoas que conheceu... eu amo essa bosta deste corte de cabelo que você fez, a mania de você usar mochila com trinta anos nas costas...
    - Vinte e nove.
    - Whatever, vinte e nove anos com uma mochila nas costas, amo seu livro gasto do Bukowski, e quando você canta no carro distraído quando esquece que eu estou ali. Eu amo as escolhas que você fez, porque tudo isto te trouxe até aqui, fez de você o homem que você é. E essa é a pessoa que eu amo. – ela encosta a testa na dele – Ei, eu amo você. Mesmo você não sendo velho...
    - Já vou fazer trinta.

    E sorriram. Ele sabia que eram muitos erros para que ela pudesse amar todos eles, e realmente aquele corte de cabelo estava péssimo, e talvez fosse a hora dele comprar aquelas bolsas de couro. E ela bem que podia parar de cortar aquela franja tão Zooey Deschanel, e parar de roubar as camisetas dele. Mas tudo bem, eles se amavam como eram, ou quase isso.