Segurei a sacola com as compras em uma mão e abracei a
sacola com vinho contra meu peito com a outra, tinha que cuidar o que era importante,
agradeci à moça do caixa com um sorriso e saí do mercado pensando no macarrão
que eu faria logo mais. A primeira coisa na verdade seria abrir o vinho e
colocar alguma música dançante.
Parei na calçada, olhei os dois lados da rua, quando senti
aquela presença. No canto do olho me espreitava um rapaz alto, magro do tipo
que anda até curvado. Ele não me olhava nos olhos e as olheiras eram enormes, o
cabelo preto contrastava com a pele clara e aquela repartição tão certinha para
a direita me trazia alguma desconfiança. Senti um arrepio e foi como se toda a
leveza de minutos atrás se dissipasse. Olhei novamente a rua e atravessei.
Duas quadras, esquerda. Olhei pra trás e ele estava ali.
Muito estranho. Segurei a outra sacola contra o peito. Esquina, esquerda. Só
mais três quadras. Apressei o passo sem olhar para trás. Duas quadras.
Tropecei.
A garrafa de vinho voou e saiu rolando, os cacos e o líquido
escuro espirraram em mim, fechei os olhos e levei a mão no rosto. Senti os
dedos se enroscarem em meu tornozelo, virei para olhar.
Abri os olhos. Minha mãe abria a porta avisando que estava saindo
para o trabalho, acendeu a luz e foi quando eu vi ele sentado ao meu pé da
cama, a mão ainda enroscada em meu tornozelo. Sentei num salto, olhei da minha
mãe para ele, dele para minha mãe. Claramente ela não via ele ali. Ficamos nos
olhando pela primeira vez, eu e ele, estava claro que ele não iria embora.
Naquele dia ele me acompanhou durante o banho, durante o
café, entrei no carro para dirigir e ele sentou no passageiro. Sua presença era
opressora, o ar ficava pesado e o dia cinza. Ninguém o via, mas sentia como eu
os incômodos quando estava perto dele.
Fui me tornando refém, eu não conhecia sua voz, ele não me
dizia palavra alguma. Mas, me seguia silenciosamente por todos os lados. A
angústia, o peso, a culpa, a dor, a ansiedade.
O medo.
O reconheci e encarei ele de frente. Perguntei o que queria
e por quanto tempo pretendia ficar me seguindo. Mal tinha voz, o coitado, gaguejava
e tentava se explicar. Eu então abracei o medo, senti compaixão por ele e entendi
que ele era parte de mim, que me mantinha viva.
Expliquei que ele não podia mais comandar ali, que ele podia
ajudar sim, mas quem dava as cartas era eu. Assim, quando eu preciso sentir
meus ossos, quando a casa precisa chacoalhar as estruturas e ficar atenta ele
vem. Ele é um alarme que me alerta dos perigos. Às vezes ele é irracional e
teimoso, e eu tenho que negociar. Todos temos que encarar o medo de frente e
negociar com ele, senão nos tornamos reféns de uma criança incompreendida que
só quer um pouco de amor e de atenção. O medo não é vencido na força, mas na
compreensão, por isso somos tão medrosos.
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