quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Não repara na bagunça

Não repara na bagunça, eu disse, girando as chaves e abrindo a porta. Entrei procurando o interruptor e já tirando os sapatos, logo atrás de mim vi que ele também se abaixava para desamarrar os tênis.
- Não precisa tirar se não quiser.
- Tudo bem. – deixamos os sapatos ao lado da porta e ele entra na sala enquanto pego um copo d’água. – Você foi assaltada?
Escuto a voz dele rindo lá da sala.
- Eu não tive tempo de arrumar, tá desse jeito há uma semana.
Não tinha sido uma boa ideia trazer ele pra casa hoje, enchi dois copos, guardei a água na geladeira e parei olhando alguns segundos pra quantidade de espaço livre nela, eu precisava passar no mercado amanhã cedo. Amanhã. Peguei os dois copos e entrei na sala, ou no que restou dela depois do campo de batalha. Trocas de roupas e sapatos acumulados, as coisas que ficaram da minha troca de bolsa em cima da mesinha, papeladas e livros no rack e na escrivaninha. Ele abre a janela e uns dois papéis saem voando.
- Desculpa. – ele vira com o barulho das folhas voando, e volta para fechar a janela.
- Não precisa.
Deixo os copos em cima da mesa, abaixo para pegar as folhas e coloco um peso sobre elas. Amanhã eu arrumo. Pego a água, enquanto ele procura algum espaço no sofá, estendo o copo para ele e jogo algumas coisas na cadeira pra poder sentar ao lado dele.
Definitivamente hoje não era um bom dia, mas eu precisava da presença dele, do silêncio que só ele era capaz de compartilhar comigo. Encosto a cabeça no ombro dele e ele passa o braço por cima dos meus ombros, fazendo carinho nos meus braços.  Aconchego em seu peito, pensando no quanto eu me sentia exausta, aquela semana tinha acabado comigo. Ficamos ali só curtindo aquele momento sozinhos, até que ele me beija.
Me levanto e tiro a blusa e a calça, ele me olha atentamente e estende a mão me puxando pra perto. E se detém na marca roxa na minha perna.
- Tá doendo?
- Não.
- O que você fez?
- Bati em algum lugar, apareceu aí, não sei.
Ele dá um beijo lugar e continua uma trilha até chegar ao meu rosto. Trago ele pra perto de mim, com as mãos em suas bochechas e dou um beijo demorado. Ele me abraça e cheira meus cabelos.
- Que está acontecendo? – me encara, passando os dedos pelo meu cabelo.
- Nada. – respondo com um nó na garganta, tentando não fazer cara de choro.
Escondo o rosto em seu peito, me agarrando à camiseta em suas costas. Ele me abraça forte e eu sinto como se eu fosse quebrar em milhares de pedacinhos e explodir nele, despedaçar no chão, de uma forma que eu nunca seria remontada, que nem ele, nem ninguém daria conta de catar todos os caquinhos. Eu carregava um mundo todo nas costas e ele me parecia pesado demais.
- Quer conversar?
Eu nego com a cabeça, como explicar o quanto a semana tinha sido cansativa, que as coisas continuavam dando tão errado, que eu me sentia inútil no trabalho, e os erros e problemas, causados ou não por mim, me faziam questionar se eu estava na profissão certa, se eu devia ter feito outra faculdade, se eu era boa o suficiente para alguma coisa, já que eu não sabia que outra coisa eu poderia fazer. E como eu me sentia perdida e sem futuro, presa pra sempre no momento de trabalhar, pagar as contas e ficar sem grana, e levantar toda segunda-feira mesmo assim, e o carro que tava com aquele barulho que não dava mais pra adiar e eu ia ter que levar pro conserto na semana que vem, só que eu tenho que trabalhar sábado por causa daquele freela que apareceu, pelo menos era uma grana que entrava, que ia direto pra pagar o carro. E eu me perguntava se a vida era só pagar boletos e me sentir inútil.
Ele solta o abraço e se afasta.
- Você não está bem, né? - dou de ombros, suspirando.
Sinto o beijo na testa e vejo se afastando, saindo pela porta da cozinha. Deixo meu corpo cair no sofá, não poderia pedir pra que ele ficasse junto com a minha bagunça, interna e externa.
- Pelo menos a louça você tem lavado. – ele volta da cozinha com duas taças e uma garrafa de vinho.
- Ver a pia limpa é uma das poucas coisas que me traz paz de espírito.
Eu pego a taça que ele me estende e enche de vinho sem cerimônias. Pelo menos o vinho nunca falta. Ele senta ao meu lado e puxa meus pés pro colo dele, contando sobre a semana, os problemas, o cliente novo que apareceu, até eu me sentir sonolenta demais para prestar atenção.
Acordo deitada na cama com ele me abraçando de conchinha, procuro algum relógio ou celular perto, são três da manhã. Me aconchego novamente em seus braços. Amanhã vai ser um novo dia, volto a dormir, amanhã eu dou um jeito nessa bagunça. Amanhã.

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