Às
vezes eu sinto como se a vida fosse um lugar e não uma questão de tempo, como
se eu pudesse voltar na rua dos 18 ou 19 anos e fazer um trajeto diferente. Penso
que peguei algum atalho entre os 20 e 23 e me encontro completamente perdida, ou
melhor, não me encontro. Já pensei em descer do carro e pedir alguma referência,
mas as pessoas estão tão corridas e determinadas nas suas vidas cheias de
sentido, que ninguém iria me dar atenção. Socorro alguém sabe para onde ir?
Já ouvi
dizer que a vida é sempre em frente, mas meu tanque já está chegando na metade
e eu não faço a menor ideia de onde estou indo. Em algum momento havia um mapa,
cheio de regras de onde ir, o que fazer, mas ele estava velho e não fazia mais
sentido. Então eu joguei fora todos aqueles conselhos e resolvi fazer o meu
próprio caminho, mas para que?
Para
ser a estúpida no meio do caminho, com as coisas mais inúteis dentro do carro, uma
faculdade que não usei, uma pós nova em folha, o porta mala cheio de livros,
alguns rabiscos e textos espalhados, algum senso de identidade. Mas nenhum
espelho. Se eu voltasse aos 18 eu me reconheceria? Se eu pudesse voltar àquela
rua, estaria eu agora no mesmo lugar?
Não,
não tem como voltar. E eu gastaria tantas energias tentando consertar o que já
foi, que perderia o que resta. Talvez eu devesse curtir mais o caminho,
enlouquecer um pouco, viajar. Talvez ajudar mais às outras pessoas, fazer algum
trabalho voluntário, olhar mais para os outros do que tentar arrumar a bagunça
que já está feita. Não por aceitar, mas por agradecer. Gratidão é um sentimento
poderoso, assim como a Empatia. Olha só, você também está perdido, poderíamos
nos ajudar.
Talvez o
caminho fosse mais fácil com alguma companhia, mas não, não posso contar com a
sorte. Sigamos em frente.
Seria
bom cuidar um pouco do corpo, fazer algum exercício, emagrecer, endurecer. Sabe
como é, já são vinte e poucos e se assim já não está aquela coisa, nos trinta a
coisa vai piorar. Definitivamente a tendência é para baixo, alguma coisa para
lutar conta enfim! Gravidade, sua puta sacana, eu podia sair voando por aí.
E fazer
algo que não fosse pelo dinheiro, ou envolvesse dinheiro, algum lugar onde só
eu me encontrasse e pudesse enfim ser eu mesma. Sem todo esse peso de ser
responsável, e sensata, e auto-suficiente. Onde eu pudesse encontrar a minha
voz, onde eu pudesse descansar a minha bagagem, sem ter que ficar carregando
todo o passado por aí.
Mas
olha só, acho que consigo ver algo ali na frente, já está amanhecendo e as coisas
são diferentes pela manhã, pelo menos é o que dizem. Mas não são as coisas que
estão diferentes, sou eu. Acabei de ver no espelho e quase não reconheci, mas
tudo bem. Difícil seria não poder mudar, não poder abandonar a bagagem,
estranho seria voltar naquelas ruas lá atrás. A vida não é um lugar, mas uma
questão de tempo.
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