quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Se a vida fosse um lugar

                Às vezes eu sinto como se a vida fosse um lugar e não uma questão de tempo, como se eu pudesse voltar na rua dos 18 ou 19 anos e fazer um trajeto diferente. Penso que peguei algum atalho entre os 20 e 23 e me encontro completamente perdida, ou melhor, não me encontro. Já pensei em descer do carro e pedir alguma referência, mas as pessoas estão tão corridas e determinadas nas suas vidas cheias de sentido, que ninguém iria me dar atenção. Socorro alguém sabe para onde ir?
                Já ouvi dizer que a vida é sempre em frente, mas meu tanque já está chegando na metade e eu não faço a menor ideia de onde estou indo. Em algum momento havia um mapa, cheio de regras de onde ir, o que fazer, mas ele estava velho e não fazia mais sentido. Então eu joguei fora todos aqueles conselhos e resolvi fazer o meu próprio caminho, mas para que?
                Para ser a estúpida no meio do caminho, com as coisas mais inúteis dentro do carro, uma faculdade que não usei, uma pós nova em folha, o porta mala cheio de livros, alguns rabiscos e textos espalhados, algum senso de identidade. Mas nenhum espelho. Se eu voltasse aos 18 eu me reconheceria? Se eu pudesse voltar àquela rua, estaria eu agora no mesmo lugar?
                Não, não tem como voltar. E eu gastaria tantas energias tentando consertar o que já foi, que perderia o que resta. Talvez eu devesse curtir mais o caminho, enlouquecer um pouco, viajar. Talvez ajudar mais às outras pessoas, fazer algum trabalho voluntário, olhar mais para os outros do que tentar arrumar a bagunça que já está feita. Não por aceitar, mas por agradecer. Gratidão é um sentimento poderoso, assim como a Empatia. Olha só, você também está perdido, poderíamos nos ajudar.
                Talvez o caminho fosse mais fácil com alguma companhia, mas não, não posso contar com a sorte. Sigamos em frente.
                Seria bom cuidar um pouco do corpo, fazer algum exercício, emagrecer, endurecer. Sabe como é, já são vinte e poucos e se assim já não está aquela coisa, nos trinta a coisa vai piorar. Definitivamente a tendência é para baixo, alguma coisa para lutar conta enfim! Gravidade, sua puta sacana, eu podia sair voando por aí.
                E fazer algo que não fosse pelo dinheiro, ou envolvesse dinheiro, algum lugar onde só eu me encontrasse e pudesse enfim ser eu mesma. Sem todo esse peso de ser responsável, e sensata, e auto-suficiente. Onde eu pudesse encontrar a minha voz, onde eu pudesse descansar a minha bagagem, sem ter que ficar carregando todo o passado por aí.

                Mas olha só, acho que consigo ver algo ali na frente, já está amanhecendo e as coisas são diferentes pela manhã, pelo menos é o que dizem. Mas não são as coisas que estão diferentes, sou eu. Acabei de ver no espelho e quase não reconheci, mas tudo bem. Difícil seria não poder mudar, não poder abandonar a bagagem, estranho seria voltar naquelas ruas lá atrás. A vida não é um lugar, mas uma questão de tempo.

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