sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Mais fácil aprender japonês em braille

                É uma pena sermos tão desinteressantes um ao outro. Você não consegue desenvolver mais de cinco de minutos de conversa comigo. E minhas tentativas de te impressionar ou de ser engraçada de alguma forma são terrivelmente miseráveis. É frustrante, para não dizer humilhante, como duas pessoas tão interessantes e divertidas não conseguem o mínimo de fluidez na prosa. Às vezes eu até consigo visualizar dois primatas, você batendo com um porrete no chão e eu puxando os cabelos, enquanto fazemos sons tentando nos comunicar. Não nos entendemos. É mais fácil aprender japonês em braille.
                Então por que nos impomos a desconfortável presença um ao outro? Por que de alguma forma estranha nossas línguas falam o mesmo dialeto quando em contato? Como nossos corpos reagem imediatamente à aproximação, negando que há alguns minutos atrás havia uma nuvem cinza de desconforto pairando sobre aquele terrível encontro kármico.
                Somos primatas. E somos ótimos nisso. Ainda que para isto tenhamos que sofrer terríveis dores impostas pelos bons modos de convívio social. Somos aquele aperto de mão que não conseguimos organizar, naquela dancinha da humilhação "opa, duas mãos direitas!" "trocou, duas esquerdas agora, legal" "dá um abraço aqui e um tapinha nas costas". Maldito tapinha nas costas.
                Nós somos as pessoas erradas, não tem essa de momento certo, nem hora errada. Nós não combinamos. Aceita que dói menos. Acontece, a gente tentou, duas vezes. Mas de boas, você é legal, juro, obrigada, que bom que você acha isso de mim. A vida segue, a gente se vê por aí.

                Caramba, o que foi que aconteceu aqui?

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